LER/DORT – Estratégias das gigantes do marketplace invisibilizam trabalhadores de galpões de armazenamento e distribuição

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Especialistas apontam como terceirizações e códigos CNAE contornam direitos trabalhistas e fiscalização, descaracterizam representação sindical e dificultam estudos e rastreio do adoecimento ocupacional.

“Nós temos uma situação de apagamento social e midiático. Não porque resolvemos os problemas, mas simplesmente porque não há mais uma onda forte de movimentos sociais e sindical que destaquem essas dores como relacionadas ao trabalho.” A frase de Maria Maeno, pesquisadora da Fundacentro e coordenadora do evento, deu o mote principal das reflexões em alusão ao Dia Internacional de Combate às LER/Dort. Com o tema “O chão de fábrica das gigantes das entregas em casa”, o encontro ocorreu em 26 de fevereiro no auditório da Fundacentro em São Paulo/SP.

Há décadas as lesões por esforços repetitivos e as doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho (LER/Dort) são uma das maiores responsáveis por afastamentos de trabalhadores de suas atividades laborais. Em 2025, foram o segundo maior motivo de afastamentos do trabalho registrados no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Apesar disso, ganham destaque os transtornos mentais, que estão em terceiro lugar nos afastamentos formais e muitas vezes são decorrentes da incapacidade física.

No setor logístico, estima-se que os casos de LER/Dort registrados sejam superiores à curva média do Brasil, observa Maeno. No entanto, os números reais são camuflados por fatores que resultam na invisibilidade dos trabalhadores do setor. Entre eles, a quantidade de trabalhadores informais, que não são contabilizados pelo INSS, os códigos da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), as formas de contratação e de gestão do trabalho.

“Interessante que nessa conscientização, que a gente tem de fazer e discutir, nós estamos sob o signo da sociedade tecnológica, de uma questão acelerada no processo de produção que faz com que as pessoas na realidade adoeçam, tenham um agravo”, ressalta Remígio Todeschini, diretor de Conhecimento e Tecnologia da Fundacentro.

Para conversar sobre o tema, a Fundacentro convidou Luci Praun, socióloga, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante do Núcleo Semente do Instituto Sedes Sapientiae, Mateus Oliveira dos Santos, mestrando em Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Paloma Breit, mestranda na Universidad de Barcelona e uma das organizadoras do Coletivo Trabalhadores Meli.

O evento teve ainda a presença dos alunos do curso técnico de Segurança do Trabalho da Escola Técnica Estadual Jaraguá (Etec Jaraguá), unidade de ensino do Centro Paula Souza.

Estratégias de apagamento

A vinda das gigantes do comércio virtual para o Brasil, em meados da década de 1990, trouxe o sistema de plataformas digitais que intermediam compra e venda on-line. O modelo de negócio mudou ao longo dos anos, e a cadeia produtiva dos marketplaces passou a incorporar novos ramos de atuação. Além da tecnologia da plataforma de compras, envolveu transporte, armazenamento, distribuição e entrega (também chamada de última milha), momento em que surgem os grandes galpões do comércio virtual.

“Quando eles se dão conta de que, para concorrerem com a loja física, eles têm que oferecer algo diferente da loja física, que é uma diversidade enorme de produtos no portal e uma entrega tão rápida que faça com que as pessoas, ao invés de ir lá perder tempo, ir à loja e comprar, possa comprar produtos diferentes e receber às vezes no mesmo dia”, observa Luci Praun.

Os códigos CNAE, no entanto, não acompanharam a mudança, e essas empresas seguem se identificando como de serviços de internet, agenciamento de serviços e outros similares.

Assim, os trabalhadores do setor, em sua maioria, não estão contratados como operadores logísticos ou de e-commerce. “Eles geralmente estão nos CNAEs dessas empresas de internet”, frisa Mateus Santos. Além de esconder o adoecimento relacionado ao trabalho, porque o trabalhador está registrado em uma empresa que não aquela do processo adoecedor, isso também dificulta estudos e rastreio do adoecimento no trabalho.

O problema ressoa também na atuação de sindicatos e, como consequência, prejudica a organização dos trabalhadores na busca por melhorias das condições de trabalho.

“Quando procuramos dados sobre o trabalhador de logística, sobre o trabalhador de galpão, ele não está classificado como operador de logística numa empresa de logística. Ou seja, o sindicato que o representa não é de trabalhadores de movimentação de logística, de trabalhadores de manutenção e armazenamento, é um sindicato que geralmente está envolvido com questões de atividades de empresas de internet, de desenvolvimento de tecnologia. São entidades que desconhecem a realidade daqueles trabalhadores”, explica Mateus.

O modelo de contratação principal adotado pelas gigantes do marketplace aprofunda ainda mais a invisibilidade social desses trabalhadores: a terceirização. Os contratos temporários de até seis meses são precários e caracterizados pela alta rotatividade.

Apesar do vínculo empregatício, a instabilidade elevada deixa constante o medo da demissão. Subjetivamente, cobra dos trabalhadores que intensifiquem cada mais a jornada de trabalho. Com cargas de até 12 horas diárias, tentar bater metas desumanas e mostrar bons resultados para buscar uma efetivação que raramente ocorre.

Adotar CNAE de serviços de internet e contratações terceirizadas revela-se um combo estratégico de controle, precarização e apagamento dos trabalhadores do setor. Essa descaracterização não só dificulta a representação sindical e a organização dos trabalhadores, mas mascara a realidade e contorna os direitos trabalhistas e a fiscalização, porque a cada seis meses o trabalhador muda de galpão, de empresa, de função.

Mesmo diante de tantas complexidades, essa realidade chegou à Casa do Trabalhador e da Trabalhadora da Fundacentro, que faz parte do projeto nacional Caminhos do Trabalho.

“Nós temos atendido trabalhadores e trabalhadoras dessas grandes empresas de logística, em particular dos galpões de armazenamento e distribuição, que em pouco tempo de atividade adoecem sobretudo por lesões da estrutura do sistema musculoesquelético, decorrentes de acidentes também, de esforço físico, da realização de posturas extremas e dos movimentos repetitivos de membros superiores e de coluna”, frisa Maeno, que é também coordenadora da Casa do Trabalhador e da Trabalhadora.

Essa vivência encontra ressonância nas falas de Mateus do Santos e Paloma Breit a partir dos diversos relatos de trabalhadores de galpões sobre lesões, adoecimentos, acidentes e adoecimentos mentais. “Realmente a gente não tem essas estatísticas. A gente só sabe quando a gente conversa diretamente com as pessoas”, ressalta Paloma.

Trabalhadores de apps x trabalhadores de galpões

A área de logística é um setor de apoio importante dos grandes comércios virtuais e é exemplo do que é o trabalho invisível. Por trás da complexa tecnologia de compra digital, as promessas de entrega rápida de grandes marketplaces escondem trabalho humano pesado e acelerado.

“A gente tem que olhar para esse processo invisibilizado, ou seja, como que comprar e querer receber no mesmo dia, no dia seguinte – e são milhões de produtos – desencadeia um processo de aceleração do trabalho, desde a plataforma até os galpões e até a última milha, que vai, evidentemente, esbarrar no limite humano”, alerta Luci Praun.

Todo esse conjunto de trabalhadores é apagado pelas questões contratuais, mas também porque a população desconhece o processo e as condições de trabalho para garantir a entrega rápida. A socióloga concorda que há certa similaridade com os entregadores por aplicativo. “A gente passou um pouco por esse exercício com os trabalhadores de entrega por aplicativos, em que todo mundo comprava no delivery e ninguém estava nem aí com as condições de trabalho que aqueles trabalhadores e trabalhadoras tinham para poder garantir aquela entrega”, exemplifica.

No caso dos entregadores por aplicativos, a situação passou a mudar quando se mobilizaram e a população passou a conhecer um pouco mais as condições degradantes de trabalho às quais são submetidos. “No caso do e-commerce, ainda falta fazer isso. As pessoas desconhecem”, reforça Luci Praun.

Por isso é fundamental abrir o tema para debate com a população e os trabalhadores. Abrir espaços de discussão e colocar luz sobre as realidades invisíveis e a importância do trabalho digno quebra barreiras. “Uma das grandes dificuldades para gente fazer mobilização e levar à frente os nossos direitos é o desconhecimento do trabalhador sobre qual é o seu direito. Muitos trabalhadores desconhecem quais são os seus direitos”, alerta Mateus.

A dificuldade de articulação, a divisão entre os trabalhadores de setores diferentes, e por vezes até no mesmo setor, faz parte da estratégia de precarização. Paloma Breit observou de perto essa realidade no comércio virtual em que atuou e explica que quem atuava em TI, atendimento e administração não podia ter contato com trabalhadores dos galpões. A distância evitava que uns conhecem a realidade de outros, identificassem pontos comuns, percebessem as formas de precarização que estavam ocorrendo e se organizassem por melhorias.

Inclusão

Se o apagamento dos trabalhadores adoecidos ou afastados por LER/Dort é um fato que demanda atenção, no caso das pessoas com deficiência o problema é ainda maior.

“Realmente, os números são invisibilizados em relação à própria questão de trabalhadores com LER/Dort que são afastados e muitas vezes a gente não tem esses dados concretos, e de pessoas com deficiência são mais ainda”, destaca Paloma.

Pensando na precarização do trabalho e na contratação de mão de obra com custos inferiores, Paloma aponta que apenas 23% das pessoas com deficiência estão no mercado de trabalho, conforme a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada em 2022 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “E normalmente pessoas que têm no corpo ou uma lesão, ou uma limitação, então exige um nível de suporte muito maior, elas não estão contratadas. E se são contratadas, elas não saem da posição inicial”, complementa.

O setor logístico muitas vezes dispõe de programa voltados à contratação de pessoas com deficiência, porém, em geral para cumprir o atendimento de cotas. Por essa razão, são alocadas em atividades com alta demanda de movimentos repetitivos e com promessas de efetivação que nunca se concretizam.

Paloma ressalta também que, na contratação, além de considerar o tipo de deficiência e não a competência da pessoa, as empresas de logística não realizam a avaliação prevista na Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF). Desse modo, o agravo ou adoecimento é atribuído ao quadro prévio de deficiência e não ao trabalho.

“Se há uma piora, se há um agravo do quadro dela, a gente não tem essa visibilidade também das pessoas com deficiência”, observa. “‘Não, isso já faz parte do seu quadro de deficiência’, porque não tem um antes e um depois para a gente avaliar”, completa.

Tecnologia nos galpões

Com o avanço tecnológico, fortaleceu-se a ideia de que muitos trabalhos acabariam ou se tornariam mais leves, que as máquinas substituiriam os humanos, inclusive nos galpões. No entanto, os palestrantes concordam que é preciso desmistificar esse discurso, que busca baratear a força de trabalho, uma vez que as empresas ainda dependem do trabalho e da força criativa humana.

“As big tecs fazem crer que realmente vão substituir todo o trabalho humano. E por trás desse discurso, há uma precarização ainda maior, contratando mão de obra mais barata”, lamenta Paloma. Assim como os demais palestrantes, entende que a tecnologia visa apenas ao lucro e acrescenta que, além de não ser feita por trabalhadores e para trabalhadores, ainda exclui pessoas com deficiência, idosos, criando barreiras e marginalização.

Em alguns setores, o trabalho humano e a intensidade diminuíram de fato, mas a outra ponta da cadeia produtiva ainda mantém o trabalho bruto, pesado, que sustenta essa imagem de leveza. “As empresas de tecnologia querem vender a ideia de que ali só tem uma tecnologia funcionando sozinha e escamotear todo o processo produtivo por trás dela”, alerta Mateus.

Fato é que uma parte do processo não será substituída por maquinário porque isso não é lucrativo, e o ser humano ainda é mais barato. “Se uma empresa dessas de entrega de alimentos, por exemplo, resolver entregar tudo por drone, vai sair muito mais caro do que ela pagar o entregador. A mesma coisa acontece no galpão”, explica Luci.

Por mais tecnologia que os grandes galpões tenham, e alguns dispõe de tecnologia de ponta, ainda dependem do trabalhador para escanear os produtos e cuidar de todo o processo. “Há um processo realmente de tecnologia que é implementado, que chega até esse operador, mas que não é para diminuir a intensidade do trabalho dele, não é para diminuir a jornada do trabalho dele, não é para melhorar a qualidade de vida”, reforça Mateus.

Gestão algorítmica

A tecnologia aplicada ao processo de trabalho nos galpões de armazenamento e distribuição tem um papel essencial no lucro e na otimização do trabalho para que o produto chegue cada vez mais rápido ao consumidor. Também oferece controle total sobre os trabalhadores e o processo de trabalho como aliada na gestão flexível do trabalho.

Mateus explica que a gestão algorítmica controla três grandes atividades principais dos operadores logísticos: coletar, embalar e despachar para o caminhão. Toda vez que o trabalhador usa o escâner, a tecnologia informa onde está o produto que ele precisa pegar, até onde deve levar e em quanto tempo.

 “O tempo que ele leva para pegar um produto de uma prateleira, colocar para embalar e voltar para pegar uma outra tarefa, o tempo metrificado do aparelhinho dele é contado como tempo ocioso, o que é um absurdo, inclusive em terminologia. Esse trabalhador não está ocioso, ele está se deslocando de uma tarefa para outra, mas a empresa conta diariamente, minuto a minuto, o tempo de ociosidade para tentar reduzir e joga essa cobrança em cima do trabalhador”, explica Mateus.

Ou seja, o escâner colhe informações sobre quantas unidades o trabalhador escaneou, qual o desempenho por área, tempo por tarefa, taxa de erros por pessoa, visão geral do trabalho por trabalhador, entre outros. São diversos dados que contribuem para a gestão flexível: controlar metas, identificar trabalhador com maior ou menor desempenho, quem será demitido ou não etc.

Essa articulação entre automação e mecânico aumenta ainda mais a pressão sobre esses trabalhadores, que vêm adoecendo por excesso de trabalho ao longo das quase 12 horas de turno de trabalho pesado. Esse processo reforça que a tecnologia nos galpões não veio para melhorar a qualidade de vida do trabalhador, diminuir a intensidade e a precarização, mas apenas para aumentar o lucro das empresas.

“É importantíssimo esse tipo de evento que a gente está fazendo hoje, que a Fundacentro está organizando, porque realmente é urgente a gente olhar para essa categoria”, finaliza Mateus dos Santos.

Texto: Karina Penariol Sanches (www.gov.br/fundacentro)

Imagem: IA – Inteligência Artificial