Abril Verde destaca a importância da gestão de riscos psicossociais na prevenção de acidentes do trabalho

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Campanha marca o início do fortalecimento da integração da saúde mental à cultura de prevenção em SST

Promover saúde e segurança no trabalho é garantir qualidade de vida, bem-estar e respeito ao trabalhador. Com esse foco, a Campanha Abril Verde mobiliza instituições, empresas e a população em torno da prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. A iniciativa faz referência ao dia 28 de abrilDia Internacional em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças Relacionadas ao Trabalho, criado após um grave acidente em uma mina nos Estados Unidos, em 1969.  

A prevenção precisa ir além de ações isoladas e ser incorporada à rotina das organizações, com fortalecimento de uma cultura de segurança e participação das lideranças e dos trabalhadores. Também são necessárias mudanças concretas na organização do trabalho, que repense questões como jornadas de trabalho, metas inalcançáveis, pausas, autonomia e participação ativa nas decisões.  

Nesse contexto, a saúde mental ganha destaque. A atualização da NR-01 (Disposições gerais e gerenciamento de riscos ocupacionais) inclui os fatores de riscos psicossociais no gerenciamento de riscos, ampliando o olhar sobre fatores como estresse, assédio e sobrecarga de trabalho. O engajamento dos trabalhadores é apontado como essencial para a efetividade das ações, desde a identificação até o controle dos riscos no ambiente laboral.  

De acordo com a Previdência Social, em 2025, os dados de afastamentos por transtornos mentais revelam uma diferença significativa entre os sexos. Do total de 546.254 benefícios concedidos, 346.613 foram destinados a mulheres, o que corresponde a 63,46%, enquanto os homens somaram 199.641 concessões, ou 36,54%.  

Esse contexto indica que cerca de dois terços dos afastamentos aconteceram entre mulheres, destacando uma maior frequência ou percepção desses problemas nesse grupo e sublinhando a importância de investigar fatores sociais, de trabalho e de saúde que afetam de maneira desigual homens e mulheres no mercado de trabalho.  

Desde o início do ano, a Fundacentro vem pautando temas estratégicos relacionados à saúde e segurança no trabalho, como teleatendimento, desafios das novas tecnologias, trabalho decente, organização do trabalho, construção civil, Cipa, segurança química, benzeno e normas regulamentadoras, entre outros, reforçando o compromisso institucional com ambientes de trabalho mais seguros e saudáveis.  

Canpat 2026 

No dia 7 de abril, o Ministério do Trabalho e Emprego – MTE lançou a Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho (Canpat) 2025, com o tema “Pela Prevenção dos Riscos Psicossociais no Trabalho”. O foco da campanha deste ano destaca a importância de reconhecer, prevenir e gerenciar fatores como estresse, assédio e sobrecarga laboral, que impactam diretamente a saúde mental e o bem-estar dos trabalhadores. 

A Assessoria de Comunicação da Fundacentro, entrevistou o técnico de segurança do trabalho e um dos precursores do movimento Abril Verde, Adir de Souza; e o diretor de Conhecimento e Tecnologia, Remígio Todeschini, ambos da Fundacentro. 

Entrevista

Adir de Souza: cultura da prevenção como meta  

Você sempre pautou sobre a cultura de prevenção contínua, como transformar a prevenção em prática do dia a dia no trabalho, e não só em campanhas?  

Adir de Souza: Este tema da cultura, há muitos anos, sempre esteve em minha meta. Quando entendi que o tema da prevenção e do cuidado no mundo do trabalho deveria ir além da visão técnica, do conhecimento da norma, da portaria e da visão tecnicista, que é um traço do projeto da educação brasileira, percebi que precisamos sair do tecnicismo e partir para a criação de um cidadão consciente da importância de ter um local de trabalho digno. 

Na prática, como a empresa mostra que se preocupa com a segurança e a saúde dos trabalhadores?  

Adir de Souza: É fundamental também que os empresários entendam que fazer prevenção é investimento e que isso evita perdas de matéria-prima, de equipamentos, de ferramentas, de máquinas e de dias perdidos de produção. Além disso, protege a imagem da empresa e da sua marca como uma organização que respeita e tem consciência de que a prevenção de acidentes está entre os direitos fundamentais.  

Como as lideranças podem criar condições e dar exemplo para que o trabalho seja mais seguro para todos?  

Adir de Souza: Hoje em dia, já existe um bom número de profissionais de segurança que têm feito, na prática, a capacitação das lideranças nas empresas, porque são os líderes que exercem grande influência no dia a dia no chão de fábrica, junto aos trabalhadores.  

Já ocorre também a implantação de políticas de segurança e saúde nas organizações. Claro que isso ainda é muito tímido, mas o movimento Abril Verde nasceu para isso, para dar um impulso ao pensar e refletir sobre a segurança e saúde no trabalho. E criarmos uma cultura mostrando que um salário não vale uma vida.  

Como as organizações podem integrar a gestão de riscos psicossociais às políticas de saúde e segurança, diante do aumento dos afastamentos por adoecimento mental?  

Adir de Souza: As empresas precisam transformar o trabalho em um ambiente mais cooperativo, livre de assédios e com espírito permanente de colaboração. É fundamental evitar metas abusivas, jornadas extenuantes e atividades que tornem o trabalho monótono ou desconectado do conjunto das operações.  

O trabalho deve ser instigante, integrado e realizado em condições que priorizem a segurança e a saúde dos trabalhadores. Ao garantir esse ambiente mais saudável, as organizações avançam na proteção da saúde mental, que é um dos grandes objetivos colocados no contexto do Abril Verde neste ano.  

Remígio Todeschini: escuta permanente dos trabalhadores  

De que forma a atualização da NR-01 pode ajudar a incluir, na prática, a saúde mental no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR)?  

Remígio Todeschini: Nessa perspectiva, o PGR deve ser construído com escuta permanente dos trabalhadores nos locais de trabalho. É preciso verificar, no dia a dia das atividades, operações e reuniões, se o bem-estar mental está sendo efetivamente considerado.  

A partir dessa escuta e do monitoramento dos ambientes, com base em protocolos que valorizem um ambiente cooperativo e participativo, é possível consolidar um programa voltado à defesa da saúde mental dos trabalhadores. Isso tende a gerar reflexos positivos, tanto na produtividade quanto na satisfação no trabalho e na qualidade de vida.  

Como as empresas podem identificar, prevenir e lidar com fatores como estresse, assédio e sobrecarga de trabalho no dia a dia?  

Remígio Todeschini: Isso passa por escutas diárias dos trabalhadores, com a realização de rodas de conversa sobre saúde e segurança do trabalho e saúde mental. A partir dessas informações, a empresa deve estabelecer correções de rota.  

Ou seja, é um processo contínuo: ouvir, identificar os problemas e agir sobre eles, ajustando as condições de trabalho sempre que necessário.  

Quais estratégias ajudam a envolver os trabalhadores na identificação, comunicação e melhoria das condições de risco no trabalho?  

Remígio Todeschini: O primeiro passo é a empresa mostrar claramente quais são os riscos e perigos potenciais existentes. Também é importante relatar quais providências já foram tomadas e demonstrar que está aberta a resolver os problemas que forem denunciados ou relatados.  

Se não houver essa abertura para soluções concretas, há o risco de aprofundar os problemas e aumentar um clima interno mais hostil e conflituoso. Por outro lado, quando há transparência e disposição para agir, o envolvimento dos trabalhadores tende a crescer. 

Texto: Débora Maria Santos

Fonte: www.gov.br/fundacentro

Imagem: Inteligência Artificial – IA