Os dados recentemente divulgados pela Revista Brasileira de Saúde Ocupacional acendem um alerta que, do ponto de vista técnico, já é conhecido pelos profissionais de Saúde e Segurança do Trabalho (SST): os acidentes não ocorrem por acaso. Quando uma pesquisa aponta que 60% dos acidentes de trabalho no Brasil evoluem para algum grau de incapacidade funcional, sobretudo envolvendo mãos e membros, fica evidente a falha sistêmica na gestão de riscos — e não apenas o erro individual.
A análise técnica dessas ocorrências revela dois fatores recorrentes e extremamente perigosos: pressa e improviso. Ambos são incompatíveis com qualquer sistema de gestão de segurança minimamente eficaz. A pressa compromete a percepção de risco, reduz a atenção e induz à negligência de procedimentos. O improviso, por sua vez, evidencia ausência de planejamento, falhas na Análise Preliminar de Riscos (APR) e deficiência na cultura de segurança.
Segurança não se resume a EPI: envolve comportamento, planejamento e saúde mental
Ainda é comum observar empresas que concentram seus esforços apenas no fornecimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), ignorando que segurança é um processo contínuo, que começa antes da execução da tarefa e termina após seu encerramento. Rotinas seguras incluem diálogos diários de segurança, escuta ativa, planejamento operacional, gestão do tempo e controle do estresse ocupacional.
Momentos como o fechamento anual de metas são exemplos clássicos de aumento de risco. A pressão por resultados, quando mal gerenciada, eleva os níveis de estresse, gera fadiga física e mental e impacta diretamente a tomada de decisão dos trabalhadores. Sintomas como insônia, alterações de humor, queda de produtividade e esgotamento emocional não são apenas questões de bem-estar — são sinais claros de risco ocupacional.
Do ponto de vista técnico, insistir na continuidade das atividades nessas condições é assumir, conscientemente, um cenário propício a acidentes, afastamentos e passivos trabalhistas.
Improviso é falha de gestão, não solução operacional
O improviso, muitas vezes romantizado como “flexibilidade”, na prática representa falha no gerenciamento de riscos. A ausência de procedimentos claros, de treinamento adequado e de suporte técnico especializado resulta em decisões inseguras no campo operacional.
Nesse contexto, a presença de uma equipe estruturada de SST, com capacidade técnica para realizar mapeamento de riscos, avaliações ambientais e acompanhamento contínuo das atividades, deixa de ser um custo e passa a ser um investimento estratégico. Segurança exige tempo — e esse tempo não é atraso, mas sim ganho operacional, redução de acidentes e preservação de vidas, como corretamente pontuado por especialistas da área jurídica e técnica.
NR-1 e riscos psicossociais: um avanço necessário e inadiável
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a considerar formalmente os riscos psicossociais e terá plena exigibilidade a partir de 2026, consolida algo que a prática já demonstrava: saúde mental é parte indissociável da prevenção de acidentes.
Tratar o tema como “excesso” ou “ônus financeiro” é um erro técnico e estratégico. Dados recentes mostram que trabalhadores inseridos em programas de bem-estar apresentam níveis significativamente maiores de engajamento, percepção positiva da saúde e desempenho profissional. Ambientes psicologicamente seguros reduzem erros operacionais, fortalecem a comunicação e aumentam a adesão aos procedimentos de segurança.
Sob a ótica da SST moderna, acolhimento, pertencimento e liberdade para pedir ajuda são fatores de proteção tão relevantes quanto qualquer EPC ou EPI.
Vigilância em Saúde do Trabalhador: enxergar o sistema, não culpabilizar o indivíduo
A Vigilância em Saúde do Trabalhador (Visat), integrada ao SUS, reforça uma visão técnica essencial: acidentes são sinais de falhas no sistema de trabalho, e não resultado exclusivo de comportamentos individuais. Essa abordagem permite identificar causas raízes, corrigir processos e atuar de forma preventiva e contínua.
A recente mobilização nacional em torno do fortalecimento da Visat representa uma oportunidade histórica de estruturar políticas públicas que enxerguem o trabalhador além dos números e estatísticas. Prevenir é sempre mais eficaz — e mais humano — do que remediar.
Conclusão técnica
Do ponto de vista da Saúde e Segurança do Trabalho, os dados apresentados não deixam margem para dúvidas: pressa, improviso e negligência com a saúde mental são fatores críticos de risco. A atualização da NR-1 reforça uma mudança de paradigma necessária, na qual a prevenção deixa de ser apenas normativa e passa a ser estratégica, sistêmica e humana.
Empresas que investem em planejamento, gestão de riscos psicossociais, escuta ativa e bem-estar não apenas reduzem acidentes e afastamentos, mas constroem ambientes mais produtivos, sustentáveis e seguros. Segurança não é custo. Segurança é gestão, cultura e responsabilidade social.
Texto: Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Imagem: Inteligência Artificial – IA




